Bastonário Entrevista Ordem dos Economistas

Entrevista – Rui Leão Martinho (Bastonário da Ordem dos Economistas)

Entrevistámos o Rui Leão Martinho, Bastonário da Ordem dos Economistas para o projeto PME Connect.
P1233610
Rui Leão Martinho, Bastonário da Ordem dos Economistas e Presidente do Conselho Consultivo do projeto PME Connect, na segunda sessão do Conselho Consultivo (3 de julho de 2018)

Rui Leão Martinho é economista, licenciado em Finanças pelo ISEG, com várias pós-graduações nos domínios da gestão, estratégia empresarial e internacionalização.

Trabalhou, ao longo da vida, sobretudo no setor financeiro, nomeadamente na banca, tendo sido fundador e presidente do Deutsche Bank de Investimento durante 11 anos, para além de ter sido administrador de duas sociedades de investimento (Eurofinanceira e MDM) e membro da primeira sociedade de leasing mobiliario (Locapor), bem como do Banque Nationale de Paris.

Foi também presidente do Instituto de Seguros de Portugal (hoje denominada Autoridade de Seguros e Fundos de Pensões), durante cerca de 8 anos, Foi ainda presidente de várias companhias de seguros e economista do Ministério das Finanças.

Em termos associativos foi presidente, ao longo de dois mandatos, do FAE-Forum de Administradores de Empresas, presidente da CCILA-Câmara de Comércio e Indústria Luso-Alemã e é o bastonário da Ordem dos Economistas desde janeiro de 2011.

Foi docente em várias Universidades de Lisboa e Coimbra, publicou um livro, vários artigos, e ao longo dos anos, publicou em vários jornais de economia, revistas da especialidade e publicações da própria Ordem.

É presentemente presidente da administração da Swipe News – ECO, presidente da assembleia geral da CBK – Corretores, membro do conselho estratégico do banco Finantia, presidente do conselho geral do FAE e presidente da assembleia geral da AIDA (Association Internationale du Droit des Assurances).

 

1) A internacionalização continua a ser um desafio para muitas empresas portuguesas. Mas apesar da recuperação económica em Portugal e na Europa, na sua opinião, porque continuam as nossas empresas apostadas em crescer nos mercados internacionais?

Hoje em dia, e na sequência da globalização, as empresas independentemente do seu país de origem, setor de atividade ou tamanho anseiam ultrapassar a sua dimensão local ou regional e poderem internacionalizar-se. E este é um anseio que toca fundo os empresários de todos os países, pelo que todas as iniciativas nesse sentido são bem vindas e devem ser bem preparadas para a obtenção dos resultados esperados.

O facto de Portugal, muito recentemente, ter pela terceira vez, no regime democrático iniciado em 1974, sofrido um resgate da sua economia que muito afetou as empresas só reforçou a urgência da sua internacionalização de forma a alargarem mercado e deixarem de estar tão dependentes do mercado nacional.

Foram, felizmente, muitas e dos mais variados setores de atividade as empresas que rasgarem horizontes, entraram em novos mercados e iniciaram ou reforçaram a sua internacionalização. Temos já hoje, felizmente, vários grupos e empresas portuguesas fortemente internacionalizados, em vários domínios e nos mais variados mercados, pelo que pela sua mão será possível preparar e levar PME a internacionalizarem-se, tal como a iniciativa da AIP e da Deloitte preconizam no projecto PME Connect, já a decorrer com apoio da AICEP, do IAPMEI, da COTEC, da Ordem dos Economistas e da Casa da América Latina. Neste projecto, de tanto interesse e de tanta oportunidade, cerca de cinquenta PME serão auxiliadas no seu processo de internacionalização por cinco grupos empresariais já experientes nesse domínio, como é o caso da Sonae, do Pestana, da Mota-Engil, da EDP e da Tekever.

2) O atual Governo tem empreendido uma política fiscal que tem permitido diminuir sistematicamente o défice das contas públicas, principalmente pela captação dos impostos indiretos. Existe, hoje, necessidade efetiva de rever o quadro fiscal aplicado às nossas empresas em Portugal, quando todos os anos batemos recordes nos valores de exportações, ou considera que baixar a carga fiscal às empresas nacionais pode ser apenas visto como uma política orçamental expansionista e pró-cíclica, com efeitos adversos na consolidação orçamental?

As empresas já a trabalhar em Portugal precisam de um quadro estável, quer seja político, quer laboral ou fiscal. E o mesmo se pede quando o país pretende atrair investimento produtivo, seja este internacional, nacional ou oriundo da diáspora portuguesa.

Ora, para além da carga fiscal que se abate sobre as empresas ser muito elevada, a instabilidade derivada de sucessivas alterações introduzidas pelos mais variados governos, em função das necessidades de obter receitas para cobrirem os custos crescentes da administração pública, tem levado a uma sobrecarga sobre os empresários que seria desejável eliminar. E, poder-se-á eliminar reconhecendo o papel dos empresários e das empresas no desenvolvimento do país e legislando no sentido de uma descida da carga fiscal, em geral, sobre famílias e empresas e legislando, no que a estas últimas se refere, no sentido de um IRC em linha com os países europeus que mais atraem investimento produtivo e de um IRS que permita reter talentos e recrutar os melhores.

Logo, como se depreenderá, é necessário e mesmo urgente rever a fundo o quadro fiscal, nomeadamente no que se refere às empresas, levando em atenção o historial recente das nossas exportações e a necessidade que Portugal tem de continuar a incentivar o seu crescimento, quer em volumes, quer em número de sociedades exportadoras, bem como a necessidade, neste mundo global e tão competitivo, de atrair investimento produtivo internacional.

3) O Senhor Bastonário é um conhecido adepto e defensor da iniciativa privada, enquanto motor da inovação e do crescimento económico. No entanto, o mercado global assiste a um período sem precedentes de protecionismo económico, com novos governos defensores de medidas de maior proteção no comércio internacional, a tomarem posse em grandes países como nos EUA e Itália, ou mesmo em pequenos países como na Eslovénia. Preocupa-o o despoletar das forças nacionalistas e anti-globalização um pouco por todo o mundo, e em particular no mundo Ocidental?

Na verdade, sou cada vez mais defensor da iniciativa privada, da livre iniciativa deixando ao Estado o papel regulador e supervisor das várias atividades económicas. Os verdadeiros empreendedores têm, em geral, preparação e conhecimentos para desenvolverem atividades nos mais variados setores, lhes imprimirem inovação e competitividade nesta economia aberta, global e concorrencial. O mercado tem depois as suas regras próprias e selecciona os melhores. Os reguladores, se independentes, com conhecimento profundo das atividades que lhes compete regular e se dispõem dos meios para exercerem as suas funções terão depois um papel fundamental, aprovando, discordando, aconselhando e fiscalizando as empresas que caiem nas suas competências.

O facto de terem aparecido, nos últimos anos, países onde os respetivos governos defendem hoje políticas proteccionistas ou se declaram expressa e claramente anti-europeus ou ainda anti-globalização não me faz modificar as ideias que expressei acima no sentido de uma economia de mercado. Pelo contrario, penso que embora com temporários efeitos negativos, essas orientações políticas serão derrotadas e abandonadas e esses países, até pela sua história e tradição (como é o caso dos EUA), voltarão a defender e praticar uma economia assente na iniciativa privada e na livre iniciativa.

4) E o que podemos fazer para combater os medos e a insatisfação que se estão a instalar nas nossas sociedades? Que visão, que tipo de discurso deve ser implementado, sobretudo na Europa, para devolver confiança, esperança e satisfação ao eleitorado?

A Europa tem estado relativamente sonolenta no que se refere ao aprofundamento da União Europeia (UE), o qual necessita de ser feito e sem o qual será difícil avançar no desenvolvimento e crescimento da economia europeia e na necessária consolidação do modelo social europeu.

Apanhada de surpresa ou até mesmo de sopetão por vários acontecimentos, a Europa tem demorado a reagir. Foram os défices excessivos de vários dos países da UE, entre os quais Portugal, foi o Brexit, ainda longe do seu terminus, tem sido a política americana, proteccionista e longe da aliança transatlántica tão acarinhada sempre pelos dois lados do Atlántico, são as forças anti-europeias, anti-euro, anti-globalização e de extrema direita ou de extrema esquerda que têm sido eleitas em países europeus.

A UE vai ter de se reorganizar, desburocratizar, reagir mais celeremente às situações que enfrenta ou pode vir a enfrentar, aprofundar a União Bancária, aprofundar todo o processo de integração dos 27 países para dar de novo confiança aos europeus, bem como esperança no futuro e naquilo que a União Europeia pode proporcionar, criando emprego, estando à frente na inovação e desenvolvimento tecnológico, fortalecendo a sua indústria financeira, nomeadamente o sistema bancário, sabendo melhor evitar e enfrentar as crises, fazendo com que os cidadãos participem mais ativamente nas fases de construção da União, mantendo o seu modelo de desenvolvimento social e, enfim, fornecendo todas as condições aos vários países para a criação da riqueza tão necessária à realização daqueles objetivos atrás apontados.

5) E as nossas empresas, estão ou não preparadas para os novos desafios no acesso aos mercados internacionais? Como podem conseguir ainda melhores resultados?

Portugal nunca se preparou nem para a globalização, nem para a entrada na zona euro, pelo que o processo de internacionalização das empresas portuguesas, em geral, tem sido difícil, trabalhoso mas felizmente com bons resultados como atestam os resultados dos últimos anos. E já contamos hoje com vários grupos e várias empresas com forte internacionalização. E deveremos continuar, não só com as maiores empresas mas também com as PME.

Por isso, a iniciativa PME Connect é tão importante. Vai permitir, numa primeira edição, que cinquenta PME iniciem ou reforcem o seu processo através duma relação estreita, coordenada e preparada com grupos já fortemente internacionalizados. Este trabalho no sentido do alargamento do estreito mercado nacional através da entrada não num, dois ou três mercados, mas num número crescentemente alargado de mercados vai, a prazo, permitir as empresas portuguesas serem mais competitivas e obterem melhores resultados, deixando de depender apenas do mercado nacional, o que se torna mais relevante nos ciclos de crise que ciclicamente ocorrem, quer por razões internas, quer por causas externas.

6) O PME Connect é um programa de apoio à internacionalização das empresas portuguesas com a particularidade de aproximar as PME das grandes empresas. Qual o papel que uma Instituição, como a Ordem dos Economistas, pode ter neste projeto, no sentido de apoiar uma internacionalização mais eficaz das nossas empresas?

Neste programa de apoio às empresas, o PME Connect, o papel que a Ordem dos Economistas tem e pode desempenhar é de disponibilizar o seu conhecimento de funcionamento da economia, quer nacional, quer internacional, disponibilizar a participação de muitos dos seus membros em açoes onde tal seja justificado e em garantir a independência, isenção e experiência requeridas pelas funções de presidência do conselho consultivo do programa. Por outro lado, toda a divulgação através do seu site ou das suas publicações das iniciativas do programa, das suas fases de desenvolvimento e, claro, no final das conclusões e realizações que todos aguardamos.

7) Por último, quais são os planos para o futuro da Ordem dos Economistas?

A Ordem dos Economistas surgiu há vinte anos, na sequência da Associação Portuguesa de Economistas que tinha sido fundada nos anos sessenta do século passado. Podem inscrever-se na Ordem, todos os licenciados na área das ciências económicas (economia, gestão, finanças). Neste momento, há cerca de 11 mil licenciados inscritos na Ordem.

Consultando o site da Ordem, poder-se-á conhecer as muitas atividades que temos ao longo de cada ano, bem como outros eventos recomendados, as notícias económicas mais relevantes, o acesso às nossas publicações de reconhecida qualidade, bem como uma bolsa de emprego e a obtenção da cédula profissional, duas vantagens ao dispor apenas dos membros. A cédula profissional tem de ser devidamente valorizada, pois trata-se de obter o reconhecimento europeu da profissão de economista através da simples inscrição na respetiva Ordem.

Os planos da Ordem são: crescer em número de membros, fazendo passar a mensagem das vantagens da adesão; continuar a contribuir para o desenvolvimento das ciências económicas; continuar de forma independente e isenta a discutir as questões fundamentais da economia; reforçar as relações já hoje existentes com outras Ordens profissionais portuguesas, bem como com as homólogas espanhola e dos muitos países de língua oficial portuguesa.

 

P1233628
Rui Leão Martinho é o Presidente do Conselho Consultivo do projeto PME Connect


Sobre a Ordem dos Economistas

LogoA Ordem dos Economistas (OE) foi fundada há vinte anos, existindo antes da sua constituição uma associação profissional (APEC) que já reunia os licenciados em ciências económicas. Quando se fala de economistas, estamos apenas a usar uma designação que abrange uma realidade muito mais vasta e que inclui os diplomados em gestão e em finanças, os quais representam 2/3 dos membros da OE, em economia e noutras especializações das ciências económicas.

O numero actual de membros é de cerca de onze mil, quais estão repartidos em vários colégios de especialidade. A maioria está inscrita no colégio de especialidade de gestão de empresas, o qual conta com cerca de sete mil profissionais. Os restantes repartem-se pelos colégios de especialidade da economia política, análise financeira, auditoria interna e gestão de insolvência e recuperação de empresas.

Uma das principais vantagens da inscrição como membro da OE é a obtenção da cédula profissional, com um reconhecimento automático por parte da UE dos detentores dessa certificação como profissionais desta área. Outras vantagens poderão ser conhecidas por uma simples consulta ao site da OE.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s