Board Advisor Entrevista Francisco Salvado West Sea

Entrevista com o Almirante Francisco Salvado (Board Advisor da WEST SEA)

Entrevistámos o Almirante Francisco Salvado, Board Advisor da West Sea, sobre as suas experiências e perspetivas de fazer parte de uma empresa portuguesa de renome, integrado num panorama internacional.

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O Almirante Francisco Salvado é atualmente Assessor da administração da West Sea.

É Oficial de Marinha, Contra-Almirante Engenheiro Construtor Naval, na reserva. Possui uma pós-graduação em Arquitetura Naval no University College London, e doutoramento em Engenharia Mecânica pela Faculdade de Ciências e Tecnologia (FCT) da Universidade Nova.

Foi Chefe da Divisão de Estudos e Projetos, Diretor de Gestão de Projetos, e Vogal do Conselho de Administração do Arsenal do Alfeite, e docente da FCT durante 23 anos. Foi também perito inspetor da capitania do Porto de Lisboa, Chefe do Departamento de Construções da Direcção de Navios e Director de Navios (Organismo de Direcção técnica da Marinha).

É consultor em engenharia naval, tendo sido autor e co-autor de vários projetos de embarcações em Portugal e no estrangeiro. Coordenou a reconstrução e restauro da fragata D. Fernando II e Glória.

1)  Todas as empresas têm uma história para contar sobre a sua fundação. No caso da West Sea, qual o contexto em que a mesma foi criada?

A West Sea foi uma aposta na diversificação das atividades do grupo Martifer, no seguimento da experiência adquirida com a entrada do grupo no sector naval através da aquisição do estaleiro Navalria, em Aveiro. Os Estaleiros Navais de Viana do Castelo, após anos de resultados negativos, de dificuldades de financiamento e de falta de investimento viram a sua atividade concessionada por decisão governamental, tendo o grupo percepcionado corretamente a oportunidade que esta concessão lhe abria, criando para o efeito, a West Sea.

Contudo o contexto do arranque desta concessão foi muito conturbado e mediático, como é típico de qualquer processo de privatização de empresas públicas, e em que muitos críticos vaticinavam o fim do setor da construção naval em Portugal. A história recente vem vindo a demonstrar que, longe de se ter extinguido, a atividade dos estaleiros em Viana do Castelo se fortaleceu do ponto de vista da capacidade e se robusteceu do ponto de vista da rentabilidade e competitividade. Sem dúvida que a passagem de uma situação crescentemente deficitária para uma situação de exploração crescentemente positiva foi estratégica para o sector e para a sua imagem junto dos mercados internacionais.

2)  Nos vários anos de vida da West Sea, são muitos os momentos que marcaram a sua atuação. Pode enumerar alguns dos momentos mais marcantes na história da empresa?

A existência da West Sea é ainda relativamente curta mas o marco decisivo, pelo enorme desafio que colocou à empresa, foi a assinatura do contrato de construção dos dois navios patrulha oceânicos para a Marinha portuguesa, até pela mediatização que acompanhou o processo inicial da contratualização dos navios. A somar à complexidade técnica das construções não é negligenciável o facto de se tratar de uma das primeiras construções da empresa, iniciada muito pouco tempo após a sua entrada em funcionamento, ainda numa fase de implementação de processos e de aprendizagem das tecnologias.

Foi muito importante o contributo dos antigos trabalhadores dos Estaleiros Navais de Viana do Castelo, de que uma parte significativa integrou a West Sea, cuja experiência, competência técnica e o saber acumulado nas construções anteriores constituíram um ativo valiosíssimo para a nova empresa.

Soube, deste modo, a empresa enfrentar o desafio e transformá-lo num sucesso, com evidente reflexo na imagem de prestígio e credibilidade da West Sea no setor.

Não foi este o único desafio mas foi sem dúvida o mais arriscado.

3)  Se a história e os eventos mais marcantes no passado nos ensinam hoje a tomar decisões mais ponderadas, na sua análise, o que avalia como grandes desafios e constrangimentos ao crescimento da organização?

Sabemos bem que o setor naval, principalmente na vertente de novas construções, é um setor de alguma imprevisibilidade e em que os grandes volumes de construção, aqueles que se traduzem em encomendas mais regulares, se situam noutras geografias por razões de competitividade resultante de uma grande disparidade dos custos dos fatores de produção. Para um pequeno estaleiro como a West Sea a opção mais acertada será a especialização em nichos de mercado, onde o conhecimento acumulado e a experiência adquirida lhe proporcionem uma vantagem competitiva que lhe permita crescer e afirmar-se como estaleiro de construção naval. Naturalmente que a atividade de reparação tem sido, e continuará a ser, muito interessante, atendendo à sua rentabilidade e à regularidade das encomendas, que aliás têm vindo a crescer de forma sustentada e expressiva.

Um dos nichos identificado como de elevado potencial é o da construção de navios de patrulha oceânicos (Offshore Patrol Vessels), estando identificados os mercados de interesse, embora sem ambições excessivas, pois a volatilidade e os longos ciclos do “procurement” naval não recomendam que o estaleiro aceite desafios que se traduzam num crescimento excessivo e demasiado rápido, que depressa se revelaria insustentável.

Procurar novos mercados, eventualmente parcerias, está nos nossos planos, mas de forma sustentada, num balanço constante entre a proporção entre a capacidade própria e a capacidade subcontratada até porque aqui reside um outro fator de constrangimento: a dificuldade de obtenção de mão de obra qualificada, que vai rareando e a dificuldade de a reter em Viana do Castelo.

4)  A internacionalização é um processo cada vez mais utilizado pelas empresas portuguesas para sustentar o seu crescimento nos mercados internacionais. No caso da West Sea, qual é a estratégia de internacionalização em curso?

Como já foi dito anteriormente, a construção naval é das atividades mais internacionalizadas, a que bem se aplica o conceito do bem transacionável. A West Sea, identificou alguns nichos em que quer buscar a excelência, os quais tem vindo incessantemente a promover ao longo dos últimos 3 anos. Naturalmente não é tarefa fácil pois no que toca a navios militares todas as nações com estaleiros de construção naval fazem ponto de honra em construir localmente, beneficiando de transferências de tecnologia (excepto as nações desenvolvidas onde é virtualmente impossível conseguirmos encomendas).

As nações com uma indústria naval mais débil, sendo os potenciais alvos do nosso interesse, são-no também de todos os outros estaleiros tecnologicamente capazes, tornando o desafio ainda maior, já que, em muitos casos, é importantíssimo o suporte político na construção de um negócio mais amplo que não se limite apenas ao fornecimento de navios.

Portanto, e em resumo, estamos empenhados em promover os NPO em países com quem temos relações de amizade e confiança, em articulação com a Marinha portuguesa, a qual tem sido inexcedível no seu apoio e participação nestas atividades de promoção e apresentação dos navios, e contando também com o apoio político do MDN, essencial para a formalização e segurança jurídico-económica deste tipo de negócios, em que o armador é um Estado e os contratos se situam na esfera pública.

5)  O PME Connect é um programa de apoio à internacionalização das empresas portuguesas com a particularidade de aproximar as PME das grandes empresas. Quais as razões que fundamentaram a decisão da empresa em aderir ao programa PME Connect?

A West Sea tem assumido um papel de observadora atenta e interessada. Naturalmente que, atendendo ao nosso tipo de produto e de mercado alvo, é mais restrito o âmbito da cooperação e do número de empresas potencialmente cooperantes connosco em processos de internacionalização.

Contudo a experiência de outros em negócios realizados na esfera pública, em particular com forças armadas, pode trazer importantes ensinamentos no que respeita à identificação dos interlocutores certas, entendimento da forma de funcionamento do processo de decisão local, escala de tempo envolvida, constrangimentos culturais e legais, etc..

6) O que falta para ter ainda melhores resultados na internacionalização?

Julgo, e expressando-me a título pessoal, que duas coisas são essenciais:

i) Mais encomendas de NPO do Estado português, para a Marinha, e até de outros tipos de navios, como forma de aumentar o portefólio de produtos e a credibilidade junto dos potenciais interessados;

ii) Flexibilização do conceito do NPO, permitindo apresentar soluções mais dirigidas para as necessidades específicas de cada cliente (ou seja, trabalhar um conjunto de opções de modo a ter, não um, mas vários produtos, mesmo que baseados na mesma plataforma física, um pouco como nos automóveis em que na mesma carroçaria são comercializados diversos modelos, com diferentes motorizações e equipamento.

7)  Por último, quais são os planos para o futuro da West Sea?

Em duas palavras: crescer e afirmar-se. É evidente que neste mercado só cresce quem mantém uma boa reputação junto dos clientes: o cumprimento dos contratos nas suas vertentes de prazos, requisitos, qualidade e preços. Mas que ao mesmo tempo tem de conseguir resultados sustentáveis. Em ambos estes aspetos tem a West Sea vindo a ter sucesso.

Para isto concorrem diversas políticas em curso a nível de uniformização de procedimentos internos, agilização dos processos de gestão, análise de risco dos projetos, e, também muito importante, uma política de comunicação e de partilha da visão estratégica muito eficaz, mantendo o alinhamento e a motivação de todos, no cumprimento dos objetivos traçados pela administração.

Cada vez mais o grupo é gerido de uma forma global e integrada, aproveitando sinergias, partilhando serviços, de modo a que todas as partes venham a contribuir positivamente para os resultados consolidados da Martifer.

Sobre a WEST SEA

A West Sea é um estaleiro naval localizado em Viana do Castelo, Norte de Portugal. Fundada pelo grupo Martifer, em 2013, a empresa é a atual subconcessionária dos terrenos e infraestruturas dos antigos Estaleiros Navais de Viana do Castelo – ENVC.

O estaleiro é uma das infraestruturas industriais mais relevantes em Portugal, com capacidade para navios de média e grande dimensão. Está equipado com oficinas e meios de elevação para a construção de módulos e equipamentos metálicos de grandes dimensões.

Com uma área total de 250.000 m2, o estaleiro tem infraestruturas para levar a cabo a construção, reconversão e reparação de qualquer tipo de embarcação até 37.000 toneladas, 190 metros de comprimento e 29 metros de boca, bem como embarcações de pequena e média dimensão.

A West Sea goza de uma localização estratégica no Norte de Portugal, junto ao oceano Atlântico e com proximidade a vários portos de relevo internacional, tais como Vigo, Leixões (Porto) e Lisboa.

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